Experimente: alimentar-se bem!

por Andreia Magliano
frutasdicavalcanti
imagem: Emiliano Augusto Di Cavalcanti, 1897-1976, Natureza Morta com frutas

Comer orgânicos, tomar suco verde, livrar-se das farinhas brancas, diminuir carnes vermelhas e frituras, etc. e tal. Oras, hoje em dia está na moda alimentar-se bem e todo mundo sabe, ou pode aprender com alguns “cliques”, como ter uma alimentação saudável. Mas esta alimentação está de fato disponível para todos?

Nunca me esqueço do Jonas*. Ele tinha 6 anos quando sua mãe faleceu de um infarto fulminante devido a obesidade, deixando toda a família, que dela dependia, com muitas dificuldades financeiras. Lembro quando ele chegou na sala de aula, dos seus olhos cor de jabuticaba, tristes e confusos, ele contou para toda classe na hora da roda, sem rodeios: minha mãe morreu… Ainda assim compartilhou comigo e com os colegas as balinhas que ele tinha ganhado…

Fartura. A escola e a comunidade movimentaram-se para ajudar. Ganharam comida, roupas novas, lembro que quando ele ganhou caixas de leite longa vida eu não pensei na soda caustica nem nos conservantes que poderiam prejudicar sua saúde. Mas então começou a saga de Jonas. Ele foi morar com o pai no Piauí e dois anos depois voltou a São Paulo, para morar com a irmã mais velha que era casada. Eles também em situação muito difícil, pois o marido tinha perdido o emprego logo depois que ela engravidou, e já tinham um filhinho de 6 anos, e agora o Jonas, que já contava oito anos. Fiquei sabendo tudo isso porque o pai da família, apareceu na minha casa num domingo, pedindo comida porque eles tinham fome. Sim fome. Não era 1900 e bolinha, isso não é um vídeo antigo de Paulo Freire falando sobre a vida do proletariado**. É o proletariado hoje.

Então implorei para a diretora da escola dar uma vaga para o Jonas voltar a escola para comer a merenda, e não pensei que, embora feita com muito amor e dedicação das funcionárias, ela é cheia de linguiças, salsichas e embutidos da pior qualidade, feijão enlatado,  purê de saquinho e Deus sabe o que tem naquele nuggets… Só pensei que era comida e que o Jonas precisava comer.

Sim a comida matou a mãe do Jonas. E mata diariamente a população que tem menos dinheiro. Exatamente assim.  Está com fome?  Então não pode ter “frescura” para comer, certo? O que é isso, reclamar da merenda! Ingratidão! Comer bem é coisa pra quem tem dinheiro… Segue esse ciclo de falta de tempo para cozinhar coisas saudáveis, excesso de trabalho, manda ver nos industrializados mais baratos, stress, produtos saudáveis/naturais cada vez mais caros… A indústria de alimentos e as pessoas ficando cada vez mais gordas. E as pessoas morrendo de infarte aos 40.

“Pra pobre é assim, amiga a moda é sobreviver, um dia de cada vez…”

Mas vejamos esta outra criança Patrícia*. Filha de pais de classe média alta, Patrícia foi temporã, quando seus pais já tinham mais de 45. Muito desejada, ela foi fruto de tratamento por muitos anos para engravidar. Os pais, dois pesquisadores importantes, passavam 60% do tempo viajando e a criança, com as babás. Babás amorosas, que deixavam seus filhos para cuidar dos filhos dos outros, mas que não podiam substituir os pais. O casamento dos dois não ia bem, as brigas eram constantes, a criança ficava completamente abandonada. Os pais deprimidos, vazios, ocupados, divórcio. Doentes, muito açúcar. Diabetes. Davam presentes. Ela tomava sorvete no café da manhã. Com 10 anos Patrícia estava obesa, fazia terapia e reforço escolar  diariamente pois já tinha repetido o ano na escola. Uma família em profundo sofrimento, uma criança abandonada, uma outra pobreza…

Por que nos alimentamos tão mal? 

A boa alimentação não é apenas um cuidado com o corpo, no sentido vazio, nem tampouco uma “modinha” passageira, ou uma frescura. É uma necessidade urgente. Vide todos os estudos que declaram serem as doenças causadas por obesidade a principal causa de morte no mundo.  Mas as principais causas de má alimentação, como vimos nas histórias acima, que são reais e atuais,  não são a falta de informação mas o estilo de vida que levamos.

Com muito dinheiro ou pouco dinheiro estamos sempre ocupados demais para cuidar da nossa alimentação. E é muito difícil mudar este hábito, porque não estamos habituados a cuidar de nós mesmos.

Estamos acostumados a viver para trabalhar, acordamos as 6h para sair as 7h chegar ao trabalho as 9h sair de lá as 18h, chegar em casa as 20h e acreditamos que qualquer outra forma de viver é impossível…

Mas não é impossível…

Como boa pedagoga, comecei a cuidar da minha alimentação criando uma rotina semanal. Sim, um cardápio para uma semana ou para 10 dias. Você consegue fazer isso em mais ou menos 30 minutos (eu levei uma hora porque sou fraudinha). Não tente nada sofisticado ou radical demais, simplesmente algo que você goste de comer, que seja variado, e que tenha os saudáveis alimentos que todos conhecemos: verduras, legumes, frutas, grãos…

O lugar mais barato para comprar orgânicos hoje em São Paulo ainda é a CEAGESP, mas estive na seção de orgânicos do Wallmart essa semana estavam bons os preços, mas você consegue se informar de dicas sobre isso nos blogs e sites apropriados: use o Dr. Google. As receitas você também tem as mais variadas na Internet.

Vou apenas dizer: faça isso! Você consegue e você merece! Não se sinta mal por parar de trabalhar por um hora para pensar na sua alimentação.  Você gasta mais tempo no facebook… Então pare agora de ler este post e vá fazer o seu cardápio… E depois me conte como foi…

Alguns sites:

https://www.veganeasy.com.br/
http://www.30tododia.com.br/category/blogs/theveggievoice/
http://www.veganismo.org.br/p/receitas-veganas.html
http://www.natue.com.br/natuelife/receitas/

E para as pessoas iniciantes e menos sofisticadas como eu, eis a minha tentativa…

suco-verde

Café da manhã: suco verde feito com 1 abobrinha, 3 folhas de couve, 1 laranja espremida, 1 maçã, gengibre e hortelã…

almoço

Almoço: Arroz integral, lentilha, purê de abóbora e brócolis e  salada de rúcula com tomate cereja.

jantar

Jantar com o maridão: arroz integral, brócoli alho e óleo, grão de bico e tomate recheado com ricota (presente do sogro!)  ah e salada de rúcula com tomatinhos cereja, suco de laranja.

Ah e seja melhor do que eu, não espere perder o emprego para fazer isso! (E me dê um crédito, eu poderia estar deprimida embaixo dos lençóis…)

*Os nomes das crianças foram modificados para não expô-las mas as histórias são reais.
**Resposta à algumas críticas que fizeram a divulgação de um vídeo de Paulo Freire falando da vida do proletariado. Segundo as pessoas (todas de classe A, claro) a vida do proletariado não é mais como Paulo Freire descreveu em 1900 e bolinha.

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