A vida nos chama…

por Andreia Magliano

vangoghimagem: Trigal com Corvos, 1980, Van Gogh

Vocação, no vocabulário comum, costumamos entende-la como aquilo que gostamos de fazer e sabemos fazer, ou mesmo aquilo que desejamos ser e queremos alcançar. Por esta razão a maior parte das pessoas frustra-se, especialmente com relação ao desenvolvimento profissional, por estarem em tarefas aquém das suas possibilidades de crescimento e sem desafio, ou ainda por almejarem situações que estão além das suas possibilidades de realização.

Vocação não é dom adquirido, e nem tampouco meta onde se queira chegar, vocação é campo de experiência. Para nos fazermos mais claros, vamos usar alguns conceitos da psicologia educacional. Vygotsky, estudioso da psicologia da aprendizagem conceituou de uma maneira muito objetiva o que seria este campo de crescimento que ele chamou zona de desenvolvimento proximal.

Uma criança engatinha e já consegue ficar em pé segurando a mão de um adulto, ou apoiando em um móvel. Ela não sabe andar ainda, mas andar está em sua zona de desenvolvimento, ou seja, se ela praticar, tendo ajuda e supervisão conseguirá andar. Esta mesma criança não teria como andar de bicicleta, nem com ajuda e supervisão, andar de bicicleta está além da sua zona de desenvolvimento.

Conforme a criança exercitar e aprender a andar, seu conhecimento adquirido aumenta e conseqüentemente sua zona de desenvolvimento também avança, ou seja, ela poderá aprender novas coisas. De forma que aquele conhecimento antes inacessível, torna-se aos poucos acessível.

Voltando a Vocação. Nossa vocação é a nossa zona de desenvolvimento, aquilo que podemos construir a partir do nosso conhecimento adquirido, mas não é o próprio conhecimento adquirido. Quando estamos realizando uma atividade que apenas usa dos nossos conhecimentos já adquiridos e que não propõe desafios, ou nos dá possibilidade de crescer, aprender novas coisas, não estamos realizando nossa vocação. Estamos apenas exercitando mecanicamente aquilo que já sabemos.

Isso pode nos trazer frustração, quando temos uma personalidade empreendedora e que busca crescimento, e estagnação quando temos uma personalidade mais acomodada que prefere manter-se na zona de conforto.

Outra razão muito comum de insatisfação profissional e pessoal, é quando confundimos nosso potencial com realização. Muitas vezes estamos realizando nossa vocação, em nossa zona de desenvolvimento, ou seja, “aprendendo a andar”. Mas acreditamos que já sabemos andar, enquanto isto é um potencial em desenvolvimento e não uma conquista adquirida. Nos falta humildade para perceber que precisamos ainda passar por um processo de aprendizagem, para poder enfim andar com nossas próprias pernas. Quando temos esta postura, nos frustramos muito, pois ao acreditar que “já sei andar” cada vez que caio me decepciono comigo mesmo e me desmotivo, quando deveria encarar naturalmente a queda já que estou em aprendizado.

É muito comum também idealizarmos metas muito distantes da nossa realidade como sendo nossa Vocação. Sou professora de uma sala de aula e fico imaginando que minha verdadeira vocação é ser Secretária da Educação. Vocação não é nunca uma meta distante. É sempre algo que está em nossa realidade presente e dentro das nossas possibilidades. Posso ter metas distantes, mas preciso planejar passo a passo esta caminhada, sem ansiar “queimar etapas”.

Só encontramos paz interior na realização da nossa vocação…

A vocação é sempre a etapa seguinte, próxima, iminente. Geralmente Idealizamos vocações distantes da realidade quando em vez de olhar para nosso próprio processo de crescimento e nos compararmos conosco mesmo, olhamos para os outros e ao nos compararmos com os outros sentimo-nos “atrasados”. Mas este sentimento é na verdade uma falta de entendimento da vida, e da pluralidade dos potenciais de cada um. Cada um tem o seu tempo e o seu processo.

E se serve de bom exemplo, Graciliano Ramos, um dos maiores escritores da literatura brasileira alfabetizou-se tardiamente, com 10 anos. Muitas pessoas ambiciosas almejam um crescimento rápido e sem base e conseguem um sucesso temporário aparente, mas tudo que não tem base, cai. E, portanto, é preciso andar partindo da base sólida das nossas conquistas adquiridas, caminhando sobre a ponte ainda instável da zona de desenvolvimento, para realizar nossa Vocação, que está em permanente mudança.

No campo das relações humanas é muito comum sofrermos de um certo tipo de alienação da nossa vocação: queremos os resultados sem viver os processos (na analogia, já saber andar sem ter que aprender). Queremos ter uma boa relação familiar, mas não queremos viver o processo de nos ajustar com nossos familiares, ou seja, desejamos que magicamente a relação se construa, sem esforço, sem conflitos.

Queremos ter o casamento perfeito e sonhamos com o companheiro ideal, mas nem sempre estamos dispostos a construir um relacionamento dentro das dificuldades inerentes a convivência.

Queremos possuir virtudes, e sermos pessoas melhores, mas não conseguimos compreender que isto é um processo longo, onde precisamos olhar para dentro, para nossas possibilidades.

E geralmente estamos olhando a vida dos outros e deixando a nossa vida, o nosso campo de ação, nossa vocação. Deixamos de ver nosso potencial de crescimento, deixamos de nos alegrar com nossas conquistas e avanços, porque o vizinho…

Só encontramos paz interior realizando a nossa vocação, ou seja, vivendo no presente o nosso projeto de um futuro melhor.

Como saber qual a minha Vocação?  Onde está meu campo de ação?

O que a vida te apresenta hoje?
Tem uma profissão?
Tem uma família? Tem amigos?
Tem um companheiro?
Tem uma igreja, um templo, uma casa de oração?

Comece agradecendo pelo que tem e sendo melhor profissional, filho, irmão, amigo, companheiro, etc. dentro da sua possibilidade. Se te falta a profissão, não deixe de qualificar-se e procurá-la, mas se apesar disto ainda ela te faltar, talvez seja um sinal de que você precisa estar mais presente em outro campo de ação: no lar, na família, lembre de começar agindo com o que você tem.

Se a tua profissão não é a que deseja, não é abandonando o trabalho que irá encontrar novas propostas, mas ao contrário, trabalhando da melhor forma possível e relacionando-se com os outros da melhor forma é que encontrarás o caminho para o crescimento: lembre, quanto mais aumentamos nosso conhecimento adquirido, mais alargamos nossa vocação, solidifique os conhecimentos que já possui, qualifique-se, solidifique as relações que tem, aprofunde-as.

Se tua família é difícil, não fuja dela,  temos que honrar nosso compromisso com aqueles que se ligam conosco pelos laços de sangue. Ela é o campo de trabalho que te chama, alegra-te de ver reunidos hoje aqueles que um dia já se odiaram. Hoje com certeza é melhor que ontem, e amanhã será melhor que hoje. Esquece o que passou e vive o hoje.

Afastou teus amigos, ou se afastaram de ti? Sempre é tempo de reconciliação, e sempre temos oportunidades de fazer novos amigos. Teu companheiro ou companheira é incompreensivo? Compreende primeiro, e busca enxergar aquelas qualidades que existem dentro do coração, talvez esquecidas pelos anos.

Só encontramos paz interior realizando nossa vocação: A vida nos chama, e sem atender a este chamado, das situações, coisas e pessoas que surgem diariamente em nossa vida, nos convidando a utilizar todas nossas conquistas adquiridas: de conhecimento intelectual, de trabalho, de amor e de virtudes que certamente já possuímos, jamais teremos paz. Estaremos sempre a olhar o que não temos, o que não construímos, até que um dia a visita da morte venha nos chamar, e a esta vocação não poderemos fugir de atender.

Advertisements

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s